O burburinho começou baixo, em conversas de corredor. Em poucos dias, já atravessava gabinetes, mesas de café e grupos de WhatsApp da política maranhense.
A hipótese ganhou corpo: a deputada Detinha poderia surgir como vice numa eventual chapa do prefeito Eduardo Braide para o governo do estado.
No tabuleiro maranhense, raramente algo acontece por acaso.
A deputada Federal Detinha (PL) é peça central no grupo político comandado pelo marido, o também deputado federal Josimar de Maranhãozinho (PL) líder de uma engrenagem eleitoral que se espalha por dezenas de municípios. Prefeitos, vereadores, bases regionais disciplinadas. Nos bastidores de Brasília e do interior do estado, o bloco ganhou um apelido irônico: “diaristas”, referência à capacidade do grupo de mobilizar votos como quem organiza um serviço por empreitada.
Mas o nome de Josimar também aparece em outro cenário, bem menos confortável.
O deputado responde a processo no Supremo Tribunal Federal, acusado de participação em um esquema de desvio de emendas parlamentares. O caso tramita na Primeira Turma da Corte, presidida pelo ministro Flávio Dino, ex-governador do Maranhão e nome frequentimente usado pela opoisção nas disputas políticas do estado.
O julgamento segue em andamento.
No radar político, a possibilidade de condenação nunca é descartada. E é nesse ponto que as engrenagens começam a ranger.
Uma aliança entre Braide e Detinha teria valor eleitoral imediato. O prefeito da capital ganharia capilaridade no interior, algo que historicamente falta ao seu grupo. Em troca, o bloco liderado por Josimar passaria a orbitar um projeto de poder mais amplo, preservando influência política caso o cenário judicial se torne adverso.
Nos bastidores, adversários traduzem essa eventual composição com uma palavra seca: sobrevivência.
A leitura é simples. Com Detinha numa chapa majoritária, o grupo tentaria manter protagonismo político independentemente do destino judicial do marido. A política, nesse caso, funcionaria como rede de proteção.
Nada disso foi oficializado. Ainda assim, as especulações correm soltas entre deputados, prefeitos e operadores eleitorais.
A pergunta que ecoa nas conversas é menos sobre a possibilidade da aliança e mais sobre suas consequências.
Josimar construiu uma das máquinas eleitorais mais robustas do Maranhão recente. Prefeitos de cidades médias e pequenas orbitam sua estrutura. O dilema é saber se essa tropa seguiria automaticamente um projeto liderado por Braide.
O prefeito de São Luís tem força eleitoral na capital, mas carrega fama de isolamento político. Relações tensas com vereadores, atritos frequentes com aliados e secretários e dificuldade de construir pontes duradouras fora do ambiente digital.
No interior, apoiar Eduardo Braide ainda é visto com fatal desconfiança. Falta ao prefeito o básico da política: diálogo estável. Se enfrenta dificuldades até para manter uma relação minimamente funcional com a Câmara Municipal de São Luís, e dificuldade de soluções com o trasporte público da capital , surge a pergunta inevitável: por que alguém apostaria que ele conseguirá comandar um exército político pelo estado?
No fim das contas, o que se desenha não é apenas uma possível composição eleitoral. É um retrato cru da política maranhense: alianças moldadas sob pressão, processos judiciais orbitando projetos de poder e lideranças tentando garantir espaço antes que o tabuleiro se esfacelar.
Enquanto isso, em Brasília, o julgamento segue seu curso no Supremo Tribunal Federal.
E no Maranhão, cada movimento é observado com lupa. Porque, na política, raramente uma vice aparece por acaso. Muitas vezes ela surge como peça de salvamento.
A composição da Primeira Turma do STF
O colegiado responsável por julgar e:
Ministros:
Flávio Dino — presidente
Alexandre de Moraes
Cármen Lúcia
Luiz Fux
Cristiano Zanin
O processo investiga um suposto esquema de cobrança de propina sobre emendas parlamentares. Além de Josimar de Maranhãozinho, também aparecem como réus o deputado Pastor Gil e o ex-deputado Bosco Costa.
O parecer do Ministério Público , representado pela Procuradoria-Geral da República é direto: pede a condenação de Josimar.
Nos autos, o vice-procurador-geral da República Hindenburgo Chateaubriand Filho afirma haver provas suficientes para condenar os réus pelos crimes de corrupção passiva e organização criminosa.
Segundo a acusação, o grupo teria exigido R$ 1,6 milhão em propina para liberar R$ 6,6 milhões em emendas parlamentares destinadas ao município de São José de Ribamar, na região metropolitana de São Luís.
A defesa de Josimar de Maranhãozinho afirma no Supremo Tribunal Federal que não há prova direta de pedido ou recebimento de propina. Segundo os advogados, a acusação da Procuradoria-Geral da República se baseia em interpretações de conversas e não comprova vantagem financeira, razão pela qual pedem a absolvição do deputado.
Agora resta aguardar para ver quem pesa mais na balança: a Justiça dos homens ou a política de milhões. A sobrevivência ou a morte súbita.














