POLÍTICA | MARANHÃO
Bastou Eduardo Braide acenar com a disputa pelo Governo do Maranhão para deflagrar um fenômeno que a política maranhense conhece de cor: a fé muda de altar antes mesmo do incenso apagar.
Deputados que até anteontem rezavam na cartilha do dinismo ensaiam agora devoção instantânea ao novo polo de atração. Conversão relâmpago, sem crise de consciência, sem memória, sem cerimônia. Alimentada exclusivamente pelo instinto de quem fareja a derrota antes do apito final.
No epicentro da debandada, Felipe Camarão assiste ao próprio entorno dissolver-se com a eficiência silenciosa de sal em água morna. É o calvário de quem é enterrado vivo pelos mesmos que deveriam segurar a pá do outro lado.
O discurso que pregava coerência virou peça de museu, exposta sem visita. O pragmatismo nu, já sem o disfarce da sobrevivência, assumiu o controle aberto da cena.
A situação seria material para comédia, não fosse tão precisa como diagnóstico clínico. Personagens que passaram anos abrigados sob o guarda-chuva dinista, nutridos por seus recursos e nomeações, agora disputam espaço no mesmo palanque de adversários históricos com a naturalidade de quem troca de camisa no banheiro do estádio. Não há constrangimento ideológico porque, no fundo, a ideologia jamais foi o combustível real do jogo.
O movimento, porém, cobra pedágio alto e imediato.
Ao abrir as portas para essa romaria de oportunistas, Braide flerta com armadilha conhecida: herdar não apenas apoios, mas a rejeição que os acompanha como sombra. É a política da catinga. Gruda na imagem, contamina o discurso, corrói lentamente o ativo mais difícil de reconstruir numa campanha, a credibilidade percebida pelo eleitor.
Esse eleitor, bem menos ingênuo do que supõem os estrategistas de ocasião, lê o roteiro sem precisar de legenda. Identifica o oportunismo, registra a incoerência e responde com o instrumento mais antigo e certeiro da democracia: o distanciamento silencioso na cabine de votação.
Ao acolher os denomeinados “zumbis políticos” de última hora, Braide corre o risco de trocar capital por companhia tóxica. Na política, nem todo apoio soma. Alguns apenas apodrecem.
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