Entre manter a autoridade judicial e evitar um confronto aberto com Washington, ministros calculam cada movimento como numa partida de xadrez internacional.
Por mais que as decisões do Supremo Tribunal Federal sejam cercadas de formalidades jurídicas, o momento atual deixa claro que a Corte também atua no campo da política internacional. A suposta proposta de conceder uma anistia pós-condenação a Jair Bolsonaro e a outros réus do suposto golpe não surge de um gesto de benevolência, mas de um cálculo estratégico: evitar que a crise com os Estados Unidos se transforme em um vendaval capaz de desgastar instituições e relações externas.
O chamado “recuo possível” é, na prática, uma engenharia de sobrevivência. Condena-se para deixar registrado o crime e reafirmar a autoridade do tribunal; abre-se caminho para que o Congresso assuma a tarefa de aliviar a tensão. É um movimento que mistura conveniência política com risco calculado.
Conveniência, porque o STF mantém sua narrativa e transfere ao Legislativo o desgaste de decidir sobre a anistia. Risco, porque qualquer gesto de flexibilidade pode ser interpretado como sinal de vulnerabilidade por quem aposta na pressão externa como instrumento de influência.
O ponto central é que Bolsonaro seguiria condenado, mas, para Washington, uma pena sem efeitos práticos pode ser suficiente para esfriar o impasse. O que não entra na mesa de negociação — e isso é enfatizado por ministros — é devolver ao ex-presidente o direito de disputar a eleição de 2026, um desejo já declarado por Donald Trump e ecoado por seus aliados no Brasil.
O Supremo tenta, assim, manter o equilíbrio: de um lado, reafirmar seu poder de decisão; de outro, evitar se tornar protagonista de um confronto internacional. É o tipo de situação em que a toga, por alguns instantes, precisa assumir o papel de diplomata — mesmo que jamais reconheça isso publicamente.
No fundo, o que se desenha não é apenas um “recuo possível”, mas um acerto silencioso entre instituições e potências. Um acordo que, se bem-sucedido, será vendido como prudência; se fracassar, será lembrado como capitulação. Entre o peso da história e o pragmatismo da política, o STF parece disposto a dar um passo atrás para não ser empurrado para fora do tabuleiro — ainda que, para isso, tenha de jogar a partida com as cartas que Washington coloca sobre a mesa.