A ordem judicial que autoriza a reintegração de posse no Residencial Flávio Dino, em Paço do Lumiar, não expõe apenas um conflito fundiário. Escancara a fragilidade da política habitacional e o silêncio dos representantes eleitos diante de uma crise social anunciada.
Cerca de 1.200 famílias vivem na área. O tempo passou sem que o poder público apresentasse qualquer solução estrutural. A ocupação se consolidou, a comunidade cresceu, e a resposta do Estado permaneceu imóvel.
O direito à moradia é assegurado pela Constituição. Não como promessa abstrata, mas como dever concreto. A legislação urbana brasileira dispõe de instrumentos para enfrentar situações como esta: regularização fundiária, mediação institucional, reassentamento planejado. Nenhum deles nasce do improviso. Todos exigem decisão política, ação administrativa e compromisso público.
O que se vê, no entanto, é inércia. A ordem judicial avança sem que haja, até agora, informação pública sobre plano de regularização, alternativa habitacional ou negociação envolvendo município, Estado e comunidade afetada.
Mais grave ainda é a omissão dos representantes eleitos. Prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais, escolhidos nas urnas por essa mesma população, seguem fora do debate. Não há posicionamento consistente, articulação visível ou cobrança efetiva por soluções.
O silêncio político, aqui, não é distração. É escolha.

Governar não se resume a cumprir decisões judiciais. Representar não se limita ao calendário eleitoral.
Quando famílias inteiras recebem notificações para deixar suas casas, espera-se mais do que notas técnicas ou mutismo institucional. Espera-se liderança, mediação e responsabilidade pública.
A reintegração de posse pode atender ao rito legal. Mas, fora do papel timbrado, a legalidade isolada é incapaz de resolver conflitos urbanos reais. Sem política pública, a sentença não organiza a cidade — empurra o problema com violência institucional. O desfecho é recorrente: a lei pesa, mais uma vez, sobre quem não tem patrimônio, influência nem voz. Resta apenas o voto, já desperdiçado nas urnas.
O caso do Residencial Flávio Dino ultrapassa o impasse fundiário. Revela um padrão institucional conhecido: o Estado não planeja, não avança na regularização e reaparece apenas no momento mais traumático, o da remoção. Nesse intervalo, a política pública se dissolve, o diálogo desaparece e o compromisso constitucional com a moradia cede lugar à lógica da força administrativa.
O núcleo do problema não é jurídico. É político. As mesmas famílias hoje ameaçadas de despejo cumprem, a cada eleição, o dever cívico de votar. Sustentam o sistema democrático, mas não recebem a contrapartida quando o direito de morar entra em risco e lhes é negado.
Eis o paradoxo: o voto é exigido, celebrado e contabilizado; a moradia, garantida na Constituição, é tratada como detalhe secundário.
O silêncio dos representantes do povo não é descuido. É posição política. E quando o Estado cobra deveres, mas se esquiva de assegurar direitos básicos, o resultado não é ordem. É desespero, desprezo, abandono e ruptura social.

















