O vice-governador disparou contra o secretário de Assuntos Municipalistas, Orleans Brandão, acusando-o de ser produto do aparelho estatal. O problema: o próprio currículo de Camarão é uma certidão do mesmo sistema que ele denuncia.
Há um tipo de erro político que não precisa de adversário para se consumar. Ele basta a si mesmo. Felipe Camarão o cometeu com rara eficiência quando, em agenda no interior do Maranhão, resolveu atacar Orleans Brandão, secretário de Assuntos Municipais e sobrinho do governador Carlos Brandão, acusando-o de ser produto do compadrio que contamina a máquina pública estadual.
Para ele a acusação era contundente. O problema é que ela também era autobiográfica.
Linha do tempo – trajetória de Felipe Camarão
Trajetória na máquina pública — ano e função: 2011 — Presidente do Procon do Maranhão:2015 — Secretário de Gestão e Previdência do Maranhão.:2015 — Secretário de Estado da Cultura:2016 — Secretário de Governo do Maranhão:2016–2022 — Secretário de Estado da Educação do Maranhão:2015–2022 — Presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira:2020–2021 — Reitor do IEMA:2022 — Vice-governador do Maranhão:2023 — Secretário de Estado da Educação (acumulando com a vice-governadoria) . Nunca disputou eleição para vereador,Nunca disputou eleição para prefeito, Nunca disputou eleição para deputado estadual, Nunca disputou eleição para deputado federal, Primeira disputa eleitoral: vice-governador do Maranhão (2022), como vice na chapa de Carlos Brandão.
Reconstituir a trajetória de Camarão é exercício rápido e devastador. O vice-governador nunca disputou uma eleição municipal. Nunca construiu base popular nas urnas. Sua carreira é uma linha contínua dentro do aparelho estatal: Uma biografia escrita exclusivamente com a caneta do governo.
O vice-governador surge depois, sem sinal de crescimento consistente e sem o capital político que justificaria o tom hostil adotado. Atacar quem está à sua frente nas pesquisas pode ser estratégia. Atacar quem você mesmo poderia ser, produto de uma estrutura estatal que nunca abandonou, é suicídio narrativo.
Dentro do campo governista, a movimentação de Camarão para se apresentar como candidato natural ao governo em 2026 nunca foi recebida com entusiasmo unânime. Hoje, o próprio grupo não o aceita de forma alguma. A ofensiva contra Orleans não apenas falhou em consolidar essa narrativa de renovação: acelerou a desconfiança de quem já torcia o nariz para a candidatura. Ninguém quer Camarão.
A política maranhense tem memória longa e pouca tolerância para amnésias convenientes. Quando a disputa interna deixa de ser tensão administrada e descamba para o confronto aberto, os estilhaços não respeitam hierarquia nem biografia. Espalham-se. Atingem aliados, adversários e, com frequência, retornam na direção de quem puxou o gatilho primeiro.
Na política, espelhos são implacáveis. Quem os ergue para constranger o adversário corre sempre o mesmo risco: descobrir, tarde demais, que o primeiro rosto a surgir no reflexo não é o do inimigo, mas, antes de qualquer outro, o próprio, com suas contradições e imprudências expostas à luz crua do infortúnio de sua propria história.
Lembrando que: o sobrinho de Felipe Camarão é Antônio Rabelo Camarão, que é pré-candidato a deputado estadual.
















