Soberania de palanque custa caro: instabilidade, fuga de capital e credibilidade destruída. No Brasil, um ministro gera caos com uma canetada.
A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de negar validade automática a ordens judiciais estrangeiras — mesmo após recuar — expôs de forma brutal a fragilidade institucional do país. Bastou um gesto interpretado como afronta à previsibilidade jurídica para que a economia entrasse em turbulência. Em poucas horas, mais de R$ 42 bilhões evaporaram do valor de mercado dos principais bancos, com Banco do Brasil e Santander entre os mais atingidos. A Bovespa derreteu mais de 2 pontos, o dólar disparou e os juros subiram.
A mensagem que atravessou fronteiras foi devastadora: o Brasil não é confiável. Em um mundo globalizado, onde capital e investimentos se movem com a velocidade de um clique, a insegurança jurídica custa caro. Ao questionar a aplicação de ordens estrangeiras sem a chancela do STF, Dino não apenas desafiou a lógica da cooperação internacional, mas também ofereceu munição para que investidores duvidem da solidez das regras brasileiras.
A terça-feira (19) virou um dia de caos: o Ibovespa caiu mais de 2 pontos (-2,10%), o setor bancário perdeu R$ 42 bilhões em valor de mercado, o dólar chegou a R$ 5,49 e os juros futuros saltaram, com contratos de 2027 atingindo 14,145%. Não foi mera oscilação — foi um colapso de confiança.
As quedas confirmadas: Banco do Brasil (BBAS3): -5,79%; Bradesco (BBDC4): -3,79%; BTG (BPAC11): -4,04%; Itaú (ITUB4): -3,97% e Santander (SANB11): -4,88%.
Não se trata de debate acadêmico ou “tese constitucional”. Foram bilhões queimados em um único pregão, fuga de capitais, descrédito institucional e a sensação de que, no Brasil, até o óbvio precisa passar pelo crivo político-ideológico do Supremo. Enquanto isso, o trabalhador assiste atônito: cada ponto que a Bolsa cai, cada centavo que o dólar sobe, é mais inflação, menos emprego, juros mais altos e crescimento travado.
O estrago não se mede apenas em cifras, mas na credibilidade do país. E credibilidade, quando perdida, não se recompõe por decreto. Dino pode até tentar justificar sua decisão como defesa da soberania, mas, no tabuleiro global, soou como arrogância provinciana — a velha mania de achar que o Brasil pode ditar suas próprias regras isolado do mundo. O mercado puniu sem piedade.
A crise não nasceu em Wall Street ou nos gabinetes de Brasília. Ela nasceu no STF, quando um ministro resolveu flertar com o experimentalismo jurídico sem medir consequências. O recuo parcial veio tarde demais. A confiança já havia sido esfarelada. O preço dessa aventura será pago em dólar, com juros altos e menos investimento.
No fim, a decisão de Flávio Dino não será lembrada como ato de coragem ou defesa da soberania, mas como arrogância togada que custou bilhões e destruiu confiança do capital exterior no país . Enquanto ele se vangloria no palco político, o mercado pune e a população sente no bolso: juros altos, dólar caro, crédito restrito e investimentos congelados. O recuo posterior do ministro apenas confirma o óbvio: no Brasil, até a Suprema Corte consegue transformar soberania em espetáculo político e estabilidade em caos.