A Acadêmicos de Niterói desceu da euforia da estreia direto para a realidade da apuração. Rebaixada do Grupo Especial do Rio de Janeiro, a escola encontrou, na prática, algo que o regulamento jamais escondeu. Jurado não avalia convicção ideológica. Avalia desfile.
O cortejo que marcou a estreia carregava uma proposta inequívoca. O enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” transformou a Marquês de Sapucaí em vitrine de referências políticas explícitas. Versos com número eleitoral, slogans reconhecíveis em campanhas e citações diretas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Carnaval e política nunca foram estranhos entre si. A diferença, desta vez, esteve na intensidade dos símbolos. A narrativa estética cedeu espaço a elementos típicos do vocabulário eleitoral. Número de urna repetido como refrão. Gritos associados à militância. O que tradicionalmente se apresenta como alegoria aproximou-se do discurso de campanha.
A legislação eleitoral brasileira não proíbe homenagens culturais. Proíbe propaganda fora do período legal. É nessa fronteira que surgem os questionamentos. Especialistas lembram que a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral estabelece limites claros para a chamada propaganda antecipada, sobretudo quando há difusão de mensagens passíveis de interpretação como promoção eleitoral.
É nesse trecho nebuloso que o desfile desperta indagações inevitáveis. Quando o samba incorpora número eleitoral, quando o refrão ecoa gritos típicos de campanha, quando a narrativa celebra não apenas a trajetória, mas a figura política em pleno ciclo pré-eleitoral, o debate abandona o campo estético e avança sobre o jurídico.
Enquanto isso, o julgamento carnavalesco seguiu seu curso sem qualquer inclinação ideológica. Harmonia, evolução, conjunto. Quesitos objetivos. A planilha não reconhece bandeiras partidárias. Apenas falhas técnicas.
Misturar esses códigos pode arrancar aplausos efêmeros nas arquibancadas. A conta, porém, chega invariavelmente. Na planilha dos jurados e na frieza da legislação. Entre o surdo de primeira e o Código Eleitoral há uma fronteira que não se curva ao espetáculo. Chama-se limite. E não há mestre de bateria capaz de reger essa passagem sem ouvir, ao final, o som mais incômodo do carnaval: o silêncio da derrota.















