Artigo de opinião:
Não quer Lula, mas quer o lulismo. Não quer Flávio, mas quer o bolsonarismo. Em suma, uma hipocrisia generalizada.
O discurso tenta se afastar de determinadas lideranças, mas busca apropriar-se do capital político que elas representam. Não quer Lula, mas quer o lulismo. Não quer Flávio, mas quer o bolsonarismo. O resultado é uma contradição que expõe a hipocrisia de uma estratégia eleitoral baseada na conveniência.
Pré-candidato ao Palácio dos Leões nega vínculo com Lula e Bolsonaro em público, mas monta chapa bipolar nos bastidores e usa a ambiguidade como moeda de campanha
Existe um nome para quem promete isenção e distribui promessas contraditórias conforme a plateia.
Eduardo Braide encarna esse personagem na corrida ao governo do Maranhão. Discursa contra a nacionalização da disputa, evita pronunciar o nome do presidente da República e, ao mesmo tempo, monta uma chapa que abriga um bolsonarista raiz e um lulista convertido, como se a coerência fosse artigo de luxo dispensável em ano eleitoral.

A frase que resume o episódio expõe o cálculo frio por trás da suposta moderação. Braide quer o lulismo sem Lula no palanque. Traduzindo, quer a força eleitoral do presidente sem pagar o preço político de dizer isso em alto e bom som.
O truque não é sutil. O pré-candidato declarou não enxergar vantagem em se associar a Lula ou a Flávio Bolsonaro. Nos bastidores, autoriza o companheiro de chapa André Fufuca, ex-ministro do governo federal recém-convertido ao lulismo, a pedir votos abertamente para o presidente durante a pré-campanha ao Senado. A decisão não nasceu de princípio algum, nasceu de conta eleitoral: impedir Fufuca de cortejar o eleitorado lulista custaria caro demais à aliança.
Enquanto isso, mantém ao lado Lahésio Bonfim, bolsonarista assumido, e uma candidata a vice que financia atos contra o próprio governo que Braide finge não ter opinião sobre.
Chamar isso de neutralidade é charlatanismo travestido de sobriedade. O pré-candidato quer transitar entre dois eleitorados inconciliáveis, oferecendo a cada um a versão que convém naquele instante.
Para o eleitor lulista, sinaliza através de Fufuca. Para o eleitor bolsonarista, sinaliza através de Lahésio. Para a imprensa nacional, veste o discurso de despolarização. O único grupo que não recebe versão nenhuma é o eleitor maranhense, obrigado a adivinhar qual Braide efetivamente vai governar caso vença.
A hipocrisia rendeu fatura dos dois lados. Petistas acusam o pré-candidato de instrumentalizar o embate entre lulismo e bolsonarismo como arma eleitoral, justamente enquanto discursa contra a polarização. Do campo oposto, aliados do ex-governador Flávio Dino, que apostavam numa aproximação com Braide, sentiram o golpe ao ver Lahésio anunciado na chapa e migraram para o vice-governador Felipe Camarão. Ninguém confia mais na palavra do pré-candidato, nem quem votou nele, nem quem cortejava sua aliança. Ninguém confia mais em ninguém virou baderna articulada. Ou traições por conveniências
O cálculo é conhecido e tem nome na ciência política, populismo de ocasião, mas no Maranhão ganha contorno ainda mais cínico.
Lula fez quase 70% no Maranhão em 2022. Diante desse número, Braide não hesita, ele se esconde. Terceiriza a aliados o trabalho sujo de acenar ao eleitorado lulista enquanto guarda para si o silêncio confortável de quem não quer se comprometer com nada. Não é estratégia, é covardia travestida de habilidade política.
Quem não tem coragem de dizer em que acredita não tem projeto, tem cálculo de sobrevivência. Braide converteu a ausência de posição em método de governo, e isso diz mais sobre sua pré – candidatura do que qualquer discurso pronto poderia dizer.
Ele não evita o confronto ideológico por prudência, evita porque não tem substância para sustentá-lo. É a política do avestruz elevada a plataforma eleitoral: enterra a cabeça na ambiguidade e espera que o eleitor não perceba o vazio por trás do silêncio calculado.
O adversário nem precisa atacar, basta repetir o óbvio: um pré – candidato que não sabe, ou não quer, dizer de que lado está não está pronto para decidir nada como governador. Vira apenas um administrador de oportunismos.















