A anulação da nomeação de Lucas Vieira Silva para o cargo de procurador judicial da Prefeitura do Recife, publicada em edição extra do Diário Oficial nesta quarta-feira (31), confirma o que a gestão tentou evitar: o ato era insustentável.
A nomeação foi assinada pelo prefeito João Campos (PSB) no dia 20 e beneficiou o filho de Maria Nilda Silva, procuradora do Ministério Público de Contas junto ao Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE), órgão responsável por fiscalizar a própria Prefeitura do Recife.
Lucas ocupava a 63ª colocação no concurso. Sem transparência, foi reposicionado no primeiro lugar da lista de Pessoas com Deficiência (PCD) após aceitação de laudo médico, retirando a vaga de candidatos que aguardavam nomeação havia quase dois anos. Não houve nota técnica, nem divulgação dos critérios da junta médica. Houve apenas a execução do ato.
A anulação não partiu de revisão interna, zelo administrativo ou controle institucional. Veio depois da exposição pública e da pressão política. O recuo não corrige a distorção: apenas reconhece que ela existiu.
O contexto agrava o episódio. A mãe do beneficiado ocupa cargo estratégico em órgão de controle externo. O prefeito que assinou a nomeação comanda a administração fiscalizada por esse mesmo sistema. Não se trata de relação pessoal comprovada, mas de um conflito institucional evidente, que exigiria rigor absoluto — inexistente no caso.
Diante da repercussão, o vereador Thiago Medina (PL) protocolou pedido de CPI, acionou o Ministério Público de Pernambuco e registrou notícia-crime na Polícia Civil, cobrando apuração de responsabilidades administrativas e penais.
“A nomeação foi anulada, mas ninguém explicou por que foi feita”, afirmou.
A fila do concurso foi furada. O benefício foi concedido. O ato existiu.
Anular depois não apaga a tentativa, nem dissolve a responsabilidade.
A pergunta que permanece é simples e incômoda:
o prefeito João Campos responderá por um ato que distorceu um concurso público ou, no Recife, a regra passa a ser tentar — e anular quando descobrem?
Até agora, a gestão não explicou, não assumiu e não responsabilizou ninguém.
O que caiu não foi a irregularidade. Foi apenas o silêncio que não se sustentou.


















